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O esgotamento do cuidador: lições do Japão e como o residencial reduz riscos

O Japão, segundo a ONU, é o país mais envelhecido do mundo, sendo esse o país onde mais se encontram pessoas centenárias que somam mais de 92mil. O país tem uma das regiões consideradas Blue Zone no mundo, situada em Okinawa, sendo uma região onde se encontra uma grande proporção de centenários com uma vida longeva e saudável, sendo um grande exemplo para o mundo. Além disso, a região também é responsável pelo desenvolvimento do conceito de Ikigai, palavra que em japonês quer dizer “Iki” (vida) e “gai” (valor/benefício), de forma que a alegria e o propósito que dão sentido à vida e incentivam a acordar todos os dias. É uma filosofia de vida mais ampla, focada em pequenos prazeres e no propósito no cotidiano.

Apesar disso, não são todas as pessoas do país que conseguem desfrutar dessa realidade, pois possui uma desigualdade social crescente, porém com um cenário pouco discutido mundialmente, visto que o país mantém certa reserva dos seus desafios internos. O esgotamento do cuidador é um fenômeno que merece atenção e debate para que possamos compreender os limites, os desafios e as mudanças que devemos adotar enquanto sociedade para proporcionar um envelhecimento com apoio tanto da família, quanto do Estado.

O esgotamento do cuidador no Japão, o que é e como surgiu

O surgimento e a escalada do esgotamento do cuidador no Japão precisam ser lidos a partir de uma conjugação clara de fatores estruturais e culturais, que se reforçam mutuamente: o rápido envelhecimento demográfico, a escassez de cuidadores profissionais, expectativas familiares enraizadas sobre quem deve cuidar, e pressões econômicas e sociais que limitam as alternativas ao cuidado domiciliar. O quadro demográfico[1] é a base dessa dinâmica, com cerca de 36 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, aproximadamente 29% da população, proporção que coloca o Japão entre as sociedades mais envelhecidas do planeta e gera demanda persistente por atenção longa e intensiva.

Em termos mais concretos, a combinação funciona assim: famílias enfrentam necessidade crescente de cuidados complexos e prolongados, muitas vezes por décadas, ao mesmo tempo em que há menos pessoas em idade ativa para trabalhar nessas funções, e o acesso a serviços formais nem sempre cobre a demanda. O resultado prático é que o cuidado recai majoritariamente sobre parentes, com destaque para mulheres, que ajustam emprego, renda e vida social para assumir jornadas extenuantes. Estudos[2] e levantamentos recentes documentam esse aumento da carga, especialmente após a pandemia de Covid-19, quando muitos serviços presenciais foram reduzidos e redes de apoio enfraquecidas.

Pesquisas[3] mais específicas também documentam que a sobrecarga do cuidador no Japão não está circunscrita apenas à demência ou a doenças crônicas, mas se manifesta de maneiras similares entre cuidadores de idosos com diferentes condições de saúde complexas, incluindo sobreviventes de câncer que necessitam de suporte prolongado e multifacetado, onde o cuidado intensivo impacta negativamente a vida social, o estado emocional e a saúde física do cuidador.

Essa combinação de fatores — demografia, cuidado familiar prolongado, falta de redes de apoio e impacto emocional — colocam em relevo a necessidade de respostas sistêmicas mais robustas, tanto em termos das políticas públicas quanto no suporte técnico e social oferecido às famílias. Entender as raízes desse fenômeno é essencial para que outras sociedades, incluindo o Brasil, possam avaliar quais modelos de cuidado reduzem riscos, protegem os cuidadores e promovem qualidade de vida para as pessoas idosas e suas redes de apoio.

Quando o cuidado recai sobre uma única pessoa: limites do cuidado familiar prolongado

Apesar de culturalmente associado a valores de responsabilidade, afeto e retribuição, o cuidado familiar prolongado, quando exercido de forma solitária e sem redes de apoio estruturadas, pode se transformar em uma experiência profundamente desgastante. No Japão, esse cenário tornou-se cada vez mais comum à medida que famílias diminuíram de tamanho, laços intergeracionais se reorganizaram e o cuidado de pessoas idosas dependentes passou a recair sobre um único familiar, muitas vezes um cônjuge igualmente idoso ou um filho adulto que precisa conciliar trabalho, renda e cuidado diário.

Esse tipo de cuidado contínuo exige atenção física constante, tomada de decisões complexas e envolvimento emocional intenso, frequentemente sem pausas adequadas. Diferente de profissões do cuidado exercidas em equipe, o cuidador familiar não conta, na maior parte das vezes, com divisão de responsabilidades, supervisão técnica ou momentos regulares de descanso. Com o passar do tempo, a ausência de alternância e de suporte transforma o cuidado em uma rotina de vigilância permanente, marcada por privação de sono, isolamento social e redução progressiva da autonomia de quem cuida.

Pesquisas japonesas mostram que muitos cuidadores familiares relatam sentimentos ambíguos, como amor e dever coexistindo com culpa, exaustão e frustração. O medo de falhar, de não fazer o suficiente ou de delegar o cuidado a terceiros reforça a tendência ao isolamento, dificultando a busca por ajuda antes que o esgotamento se instale. Em contextos assim, o sofrimento do cuidador permanece invisível por longos períodos, tanto para o sistema de saúde quanto para a comunidade, até que sinais mais graves comecem a aparecer.

Outro elemento central nesse debate é a ideia de que o cuidado domiciliar, por si só, seria sempre a opção mais humana ou mais segura. A experiência japonesa demonstra que essa percepção precisa ser analisada com cautela. Sem suporte técnico, adaptações ambientais, acompanhamento profissional e momentos de alívio, o domicílio pode se tornar um espaço de sobrecarga extrema, onde tanto a pessoa idosa quanto o cuidador ficam expostos a riscos físicos e emocionais. O cuidado, nesse caso, deixa de ser um processo compartilhado e passa a ser um fardo solitário.

 

Reconhecer os limites do cuidado familiar não significa desvalorizar o vínculo afetivo ou a dedicação das famílias, mas compreender que o envelhecimento com dependência exige estruturas que vão além da boa vontade individual. A experiência do Japão evidencia que, quando o cuidado é sustentado apenas pelo esforço de uma única pessoa, sem apoio contínuo, o risco de adoecimento emocional, falhas no cuidado e situações extremas aumenta de forma significativa.

No próximo tópico, vamos avançar para compreender como modelos organizados de cuidado, com equipes, rotinas estruturadas e suporte técnico, podem atuar como fator de proteção tanto para a pessoa idosa quanto para quem cuida, reduzindo riscos e promovendo maior segurança no envelhecimento.

O cuidado compartilhado como proteção: o papel das ILPIs na redução de riscos e na promoção do bem-estar

Diante dos desafios impostos pelo envelhecimento populacional e das evidências sobre os limites do cuidado solitário, torna-se cada vez mais claro que o cuidado seguro é aquele que se constrói de forma compartilhada, estruturada e acompanhada. As Instituições de Longa Permanência para Idosos surgem, nesse contexto, não como substitutas do afeto familiar, mas como uma rede de apoio essencial, capaz de organizar o cuidado, distribuir responsabilidades e oferecer suporte técnico contínuo tanto às pessoas idosas quanto às suas famílias.

Diferentemente do cuidado isolado, as ILPIs operam a partir de equipes multidisciplinares, rotinas definidas, ambientes adaptados e processos monitorados, o que reduz riscos físicos, emocionais e assistenciais. A presença de profissionais treinados permite identificar precocemente sinais de fragilidade, alterações de humor, distúrbios do sono e necessidades específicas, promovendo intervenções oportunas e individualizadas. Além disso, o cuidado em equipe dilui a sobrecarga, evitando que o peso do cuidado recaia sobre uma única pessoa, como observado em contextos de esgotamento extremo.

É nesse cenário que redes estruturadas, como o Terça da Serra, assumem um papel estratégico no cuidado ao envelhecimento no Brasil. Com mais de 150 franquias espalhadas pelo país, a rede atua a partir de um modelo que prioriza a padronização de boas práticas, o treinamento contínuo das equipes e a existência de núcleos internos de consultoria e auditoria, responsáveis por acompanhar processos, orientar unidades e garantir a qualidade do cuidado prestado. Essa estrutura fortalece a segurança assistencial e cria um ambiente mais estável tanto para os residentes quanto para os profissionais do cuidado.

Ao investir em formação permanente, protocolos claros e acompanhamento técnico, o Terça da Serra contribui para um modelo de envelhecimento mais protegido, onde o bem-estar da pessoa idosa é indissociável do cuidado com quem cuida. Esse compromisso com a qualidade, com a ética e com a humanização do cuidado dialoga diretamente com os aprendizados internacionais, inclusive aqueles observados no Japão, ao reconhecer que cuidar bem também exige estrutura, apoio e corresponsabilidade.

Falar sobre esgotamento do cuidador, portanto, não é um exercício de medo, mas de consciência. É reconhecer que o envelhecimento exige respostas coletivas, organizadas e humanas. As ILPIs, quando comprometidas com boas práticas, transparência e qualificação profissional, tornam-se aliadas fundamentais das famílias e da sociedade na construção de trajetórias de envelhecimento mais seguras, dignas e sustentáveis.

Para conhecer de perto esse modelo de cuidado, entender como funcionam as rotinas, as equipes e os espaços pensados para o bem-estar no envelhecimento, vale buscar a unidade do Terça da Serra mais próxima e agendar uma visita. O cuidado começa com informação, diálogo e escolhas conscientes.

[1] Fonte: https://www.stat.go.jp/english/data/jinsui/2024np/index.html

[2] Fonte: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2953421/

[3] Fonte: https://www.mdpi.com/2227-9032/11/4/473