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Cuidar com tecnologia: o Japão e as soluções que desafiam a demência

A demência deixou de ser um tema “do futuro” e virou um desafio do presente. No mundo, estimativas da Organização Mundial da Saúde[1] indicam dezenas de milhões de pessoas vivendo com demência e quase 10 milhões de novos casos por ano, com impacto direto na autonomia, na família, nas equipes e nos serviços de cuidado.

Neste atual cenário o Japão entra como um espelho desconfortável, mas extremamente útil. O país é um dos mais envelhecidos do planeta, com cerca de 29,3% da população com 65+ anos[2], segundo o relatório anual do governo japonês.

Quando uma sociedade chega a esse patamar, a conta do cuidado fica explícita: cresce a demanda por segurança, previsibilidade, suporte à equipe e soluções que ajudam a manter qualidade de vida mesmo quando a cognição muda.

Por isso, o Japão virou um “laboratório vivo”[3] do cuidado contemporâneo, não por romantização tecnológica, mas por necessidade real. Com a pressão assistencial e o avanço de condições cognitivas, o país passou a testar e consolidar soluções que unem organização, ambiente, processos e tecnologia, buscando o que toda instituição séria também busca: cuidado mais seguro, rotina mais leve para a equipe e mais dignidade para quem envelhece.

 

Por que o Japão virou referência e quais soluções já estão em uso no cuidado com demência?

 

O Japão não virou “referência” por modismo, virou por pressão concreta. A população envelheceu muito rápido, o país já tem cerca de 29,3% de pessoas com 65+ anos, e isso estressa tudo ao mesmo tempo: família, rede comunitária, instituições, equipe e financiamento do cuidado.

Com essa realidade, a pergunta deixou de ser “se” a tecnologia entra no cuidado e passou a ser “como” ela entra sem desumanizar. E o que o Japão tem feito, com muito pragmatismo, é concentrar tecnologia onde ela resolve dor real da operação, especialmente em quatro frentes:

Primeiro: segurança e prevenção de risco. Sensores e monitoramento[4] para identificar quedas, mudanças bruscas de rotina, saída do quarto à noite, padrões de sono e sinais indiretos de agitação. Isso não é ficção científica, são soluções já testadas e adotadas em serviços porque reduzem risco e melhoram a vigilância clínica sem aumentar ronda física o tempo todo.

Segundo: suporte ao trabalho da equipe. Parte do investimento em robótica e automação no cuidado de longa duração nasce do descompasso entre demanda crescente e força de trabalho menor. Na prática, entram dispositivos[5] para ajudar em tarefas físicas, reduzir sobrecarga noturna e organizar rotinas, com foco em aliviar gargalos, não em “substituir cuidador”.

Terceiro: estímulo e vínculo para reduzir sofrimento[6]. Aqui entram tecnologias de companhia e interação, como robôs sociais usados em contextos de demência para engajamento, redução de agitação e estímulo afetivo, com pesquisas e revisões discutindo evidências e limites desses recursos.

Quarto, ambiente inteligente[7], rotina previsível e cuidado orientado por dados. Quando você junta sinalização, ambiência, protocolos e registros, a tecnologia vira uma camada de organização. Ela ajuda a antecipar problemas, ajustar o cuidado e dar mais previsibilidade para a pessoa com demência, que é justamente onde muita coisa melhora.

 

O que realmente funciona: tecnologia como apoio, não substituição do cuidado humano

 

Se tem uma coisa que o Japão deixa claro, é que tecnologia boa no cuidado não é a que “faz tudo”. É a que entra onde a rotina aperta, reduz risco, organiza o trabalho e devolve tempo de qualidade para a equipe fazer o que nenhuma ferramenta faz: presença, vínculo, leitura fina de comportamento, acolhimento.

Isso aparece muito nas pesquisas[8] com cuidadores e profissionais: quando falamos de tarefas emocionalmente significativas, como banho, alimentação, conversa profunda, manejo de medo e confusão, existe uma resistência natural e saudável a “terceirizar” isso para tecnologia. A percepção é bem consistente: o cuidado humano tem um componente invisível de trabalho emocional e de dignidade que não pode ser automatizado sem custo ético.

Ao mesmo tempo, existe um consenso prático sobre onde a tecnologia ajuda de verdade[9] no cuidado de pessoas com demência: monitoramento noturno menos intrusivo, sensores e alertas para prevenção de quedas e desorientação, registros mais inteligentes para ajustar o plano de cuidado e ferramentas de estímulo e engajamento que complementam as intervenções da equipe. Só que até aqui há um detalhe de ouro: não é “instalar e pronto”. Funciona quando vira protocolo, quando tem treinamento, quando tem governança e quando se protege privacidade e autonomia.

E há outro ponto que chama atenção: até as recomendações mais recentes sobre tecnologia assistiva[10] para demência batem na mesma tecla, precisa ser simples, acessível, não pode sobrecarregar a pessoa nem a equipe e deve respeitar o contexto real de cuidado. Não é sobre gadgets, é sobre utilidade e adesão.

 

Lições práticas para instituições, o que já dá para aplicar no Brasil e como transformar inovação em cuidado qualificado

 

Na prática, a tecnologia mais útil para ILPIs e residenciais assistidos costuma entrar em quatro pontos bem objetivos:

O primeiro é segurança e prevenção de risco, principalmente no período noturno. Sensores de presença e movimento, alertas de saída de leito, monitoramento de portas em áreas sensíveis e iluminação inteligente reduzem quedas, desorientação e rondas invasivas. Isso não substitui supervisão, mas reduz o “escuro operacional”, aquele momento em que a equipe tem de adivinhar o que está acontecendo.

O segundo é previsibilidade de rotina, que para demência é quase terapêutica. Ferramentas simples como lembretes ambientais, sinalização mais clara, trilhas de circulação, organização visual e registros padronizados ajudam muito mais do que parece, porque diminuem ansiedade, agitação e conflitos do dia a dia. Aqui, tecnologia e ambiente caminham juntos.

O terceiro é suporte à equipe, para reduzir sobrecarga e melhorar consistência do cuidado. Sistemas de registro e plano de cuidado mais inteligentes, checklists padronizados, protocolos de observação de comportamento e comunicação interna bem desenhada fazem a equipe “ganhar tempo”, e tempo no cuidado vira qualidade, não vira pressa.

O quarto é estímulo e bem estar, mas com critério. Música, recursos audiovisuais, atividades mediadas por tecnologia e experiências sensoriais podem ajudar, desde que sejam integradas ao plano terapêutico e não virem entretenimento aleatório. Em demência, estímulo sem estratégia pode gerar agitação, então o filtro é sempre o mesmo: objetivo, dosagem, acompanhamento.

Agora, trazendo para o Brasil, a grande chave não é ter “a tecnologia mais avançada”, é ter a tecnologia mais viável e bem implementada. Muita coisa já é possível com custo controlado, desde que seja aplicada com governança. O erro comum é comprar solução e só depois pensar no processo. O caminho sólido é o inverso.

Se esse tema te interessa, vale acompanhar o Blog do Terça da Serra. A ideia aqui é sempre a mesma: traduzir tendências e evidências em práticas reais de cuidado, com responsabilidade, sensibilidade e pé no chão, pensando tanto em quem envelhece quanto em quem cuida.

E se você está a procurar um lugar onde o cuidado não depende de improviso, mas de método, rotina bem estruturada e atenção ao detalhe, conheça uma unidade do Terça da Serra mais próxima de você. Visitar, conversar com a equipe e entender o modelo na prática costuma ser o melhor jeito de perceber o que faz diferença no dia a dia.

[1] Fonte: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dementia

[2] Fonte: https://www8.cao.go.jp/kourei/english/annualreport/2025/pdf/2025.pd

[3] Fonte: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10912804

[4] Fonte: https://www.reuters.com/technology/artificial-intelligence/ai-robots-may-hold-key-nursing-japans-ageing-population-2025-02-28

[5] Fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0927537124001623

[6] Fonte: https://www.nature.com/articles/d41586-024-01184-4

[7] Fonte: https://mainichi.jp/english/articles/20241226/p2a/00m/0bu/041000c

[8] Fonte: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12584996

[9] Fonte: https://www.mdpi.com/1648-9144/61/11/1926

[10] Fonte: https://alz-journals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/alz.70755

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