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A influência da música, arte e memória afetiva no cuidado com idosos

Cuidar de uma pessoa idosa também é conhecer aquilo que faz parte da sua história. Uma música, uma fotografia, uma pintura ou uma lembrança podem despertar emoções e criar caminhos de comunicação que nem sempre aparecem em uma conversa comum. No cuidado cotidiano, esses elementos podem ajudar a aproximar pessoas, fortalecer vínculos e tornar os momentos vividos mais significativos.

Quando uma música é mais do que uma música

Basta tocar uma canção conhecida para que, às vezes, alguma coisa mude. A pessoa que estava quieta começa a cantar. Quem parecia não se lembrar de determinada conversa reconhece imediatamente uma melodia. Alguém sorri, acompanha o ritmo com as mãos ou começa a contar onde costumava ouvir aquela música.
Isso acontece porque a música está frequentemente ligada a experiências carregadas de emoção. Uma canção pode estar associada a um namoro, a uma festa, à família, à juventude, a uma profissão ou a uma fase importante da vida. Por isso, ela pode funcionar como um estímulo capaz de despertar não apenas uma lembrança, mas também sensações e sentimentos relacionados a essa experiência.
No cuidado com pessoas idosas, especialmente quando existem alterações cognitivas, isso ganha um significado especial. Nem sempre é necessário perguntar “você se lembra desta música?”. Às vezes, é mais interessante simplesmente colocá-la para tocar e observar o que acontece. A pessoa pode não saber dizer o nome do cantor ou em que ano ouviu aquela canção, mas ainda assim demonstrar reconhecimento, emoção ou vontade de participar.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas da música no cuidado. Ela não precisa ser utilizada como um teste de memória. Pode ser apenas uma oportunidade de encontro.
Quando conhecemos as músicas que fizeram parte da vida de uma pessoa, conhecemos também um pouco mais da própria pessoa. E isso pode mudar a maneira como nos relacionamos com ela no dia a dia.

Memória afetiva: o que permanece quando muita coisa muda?

Nem toda lembrança chega quando alguém pergunta diretamente “você se lembra?”. Algumas aparecem de maneira inesperada, diante de uma fotografia antiga, do cheiro de uma comida conhecida ou de uma música que fazia parte da rotina há muitos anos. É nesse território que entra a memória afetiva, formada pela relação entre experiências, emoções e pessoas que marcaram a nossa história.
No envelhecimento, essa dimensão pode ganhar ainda mais importância. Uma pessoa pode ter dificuldade para recordar acontecimentos recentes e, ao mesmo tempo, reagir com clareza diante de uma lembrança muito significativa. Isso não significa que a memória esteja simplesmente dividida entre o que “funciona” e o que “não funciona”. A memória humana é complexa e está profundamente ligada às emoções, aos sentidos e às experiências que acumulamos ao longo da vida.
Por isso, fotografias, objetos, músicas, cheiros, sabores e histórias podem ser utilizados no cuidado como convites à conversa e à expressão. Em vez de perguntar apenas datas, nomes ou acontecimentos, podemos perguntar quem aparece naquela fotografia, que música costumava tocar naquela época, onde determinada receita era preparada ou o que aquela lembrança desperta.
A diferença parece pequena, mas muda completamente a proposta. Não estamos colocando a pessoa à prova. Estamos oferecendo uma oportunidade para ela se reconhecer na própria história.
E, muitas vezes, aquilo que surge nessa conversa vai muito além da lembrança inicial. Aparecem afetos, opiniões, preferências, histórias de família e aspectos da personalidade que ajudam a equipe a conhecer melhor aquela pessoa. É uma forma de lembrar que, antes de ser residente, paciente ou pessoa idosa, existe alguém que passou uma vida inteira construindo histórias que continuam fazendo parte de quem ela é hoje.

Arte também é uma forma de comunicação

Quando pensamos em arte no cuidado com pessoas idosas, é comum imaginar oficinas de pintura, trabalhos manuais ou atividades organizadas pela equipe. Mas a arte pode ocupar um espaço muito maior do que isso. Cantar uma música, escolher uma fotografia, observar uma pintura, dançar, desenhar ou simplesmente ouvir algo que desperte interesse também são formas de expressão.
Nem toda pessoa consegue ou deseja falar sobre aquilo que sente. Isso pode acontecer por alterações cognitivas, dificuldades de linguagem, limitações físicas ou simplesmente porque nem tudo aquilo que vivemos é fácil de colocar em palavras. A arte oferece outras possibilidades. Um desenho pode comunicar uma sensação. Uma música pode despertar uma emoção. Uma fotografia pode trazer uma história inteira.
Por isso, no cuidado, o mais importante nem sempre é ensinar uma técnica ou produzir alguma coisa bonita. É criar espaço para que a pessoa participe à sua maneira. Não existe uma forma correta de pintar, cantar ou se relacionar com uma obra. Existe aquilo que aquela experiência provoca em quem está diante dela.
Quando a equipe conhece as preferências de cada pessoa e encontra maneiras de incorporá-las ao cotidiano, a arte deixa de ser apenas uma atividade programada e passa a fazer parte da relação de cuidado. E, nesse processo, ela pode revelar muito sobre quem aquela pessoa é, sobre o que gosta, sobre o que sente e sobre as histórias que ainda deseja compartilhar.

Não é preciso ser artista para se beneficiar da arte

Quando uma atividade com arte é proposta a uma pessoa idosa, o objetivo não precisa ser criar algo bonito, perfeito ou tecnicamente elaborado. Na verdade, muitas vezes, o que torna a experiência valiosa está justamente no processo. Escolher uma música, misturar cores, reconhecer uma imagem, completar uma letra ou mexer em fotografias antigas pode despertar curiosidade, prazer e vontade de participar.
Isso também significa abandonar a ideia de que existem atividades “certas” para todas as pessoas. Uma proposta que desperta entusiasmo em alguém pode não provocar nenhum interesse em outra. Por isso, conhecer a história, os gostos e os hábitos de cada pessoa faz diferença. Quem sempre gostou de cantar talvez prefira uma roda de música. Quem nunca teve interesse por pintura pode se envolver muito mais ao escolher fotografias ou ouvir histórias.
O cuidado também está em não transformar esses momentos em uma obrigação. Quando a atividade deixa de ser uma experiência prazerosa e passa a ser uma tarefa que precisa ser cumprida, perde parte daquilo que a torna significativa. Dar espaço para escolher, observar, participar ou simplesmente não participar também é respeitar a autonomia.
No fim, não estamos procurando artistas. Estamos criando oportunidades para que cada pessoa encontre uma forma de estar presente, de se expressar e de se relacionar com aquilo que ainda faz sentido para ela.

Cuidar também é conhecer a história de quem está diante de nós

Música, arte e memória afetiva podem fazer parte do cuidado de uma maneira muito simples: ajudando a equipe a conhecer melhor a pessoa que está diante dela. Saber qual música ela gosta, que tipo de arte aprecia, quais histórias costuma contar ou quais objetos despertam alguma reação não é apenas uma informação interessante. São pistas sobre a sua identidade, seus vínculos e aquilo que ainda faz sentido no cotidiano.
Isso é especialmente importante quando o envelhecimento vem acompanhado de alterações cognitivas ou dificuldades de comunicação. Quando as palavras se tornam mais difíceis, outros caminhos podem continuar disponíveis. Uma canção conhecida, uma fotografia antiga ou uma atividade que faça sentido para aquela pessoa podem criar uma oportunidade de contato que talvez não acontecesse de outra maneira.
Por isso, atividades culturais e artísticas não precisam ser vistas apenas como uma forma de preencher o tempo. Quando pensadas a partir da história individual, elas ajudam a construir um cuidado menos padronizado e mais atento às particularidades de cada pessoa.
No Terça da Serra, acreditamos que conhecer quem cuidamos faz parte de cuidar bem. Por isso, buscamos valorizar histórias, preferências, vínculos e experiências que ajudam cada residente a continuar sendo reconhecido pela pessoa que é, e não apenas pela fase da vida em que se encontra.
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