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Amor na velhice: por que ainda tratamos isso como exceção?

Quando junho chega e o Dia dos Namorados se aproxima, os corações aparecem em todo lugar, as flores enchem as vitrines e as redes sociais transbordam de histórias de amor. Mas há um amor que raramente aparece nessas narrativas: o amor entre pessoas idosas. Especialmente quando esse amor floresce dentro de uma Instituição de Longa Permanência para Idosos.

Por que ainda tratamos o amor entre pessoas idosas como algo fora do lugar?

O preconceito que ninguém assume ter

Existe uma imagem cristalizada na cabeça de muita gente: a velhice como uma fase “sagrada”, serena e, sobretudo, assexuada. Para muitos, existe um grande tabu em relação à sexualidade na velhice, pois é comum que a maturidade seja imaginada de uma maneira mais “sagrada” e até mesmo assexuada, o que acaba gerando estranheza quando pessoas idosas iniciam um relacionamento.

Esse estranhamento raramente vem acompanhado de má intenção. Ele é, na maioria das vezes, resultado de uma construção cultural profunda que associa o envelhecimento ao fim dos desejos, e não à continuidade da vida. O problema é que essa visão tem consequências reais para quem envelhece.

Estudos brasileiros[1] mostram que a família contribui para o fortalecimento e reprodução de preconceitos sobre a sexualidade na velhice, culminando na supressão dos desejos pelas pessoas idosas e na submissão ao sistema sociofamiliar. Em outras palavras, o idoso que sente desejo de amar e ser amado muitas vezes se cala, não porque o sentimento desapareceu, mas porque o ambiente ao redor não deixa espaço para que ele exista.

Grande parte dos idosos acredita que estimula a sua sexualidade, porém identifica a família e a religião como fatores inibitórios. Eles se veem presos aos julgamentos familiares e estabelecem uma relação de submissão à família.

O amor não tem data de validade

A ciência é clara: o desejo de amar e ser amado não desaparece com a idade. O que muda é a forma como ele se expressa.

A maioria das idosas relata que o amor na terceira idade é um amor mais maduro e sereno, diferente de uma relação da juventude. O companheirismo aparece como o valor central, junto com admiração, diálogo, fidelidade e cuidado mútuo. Não é um amor menor, é um amor diferente, construído sobre décadas de experiência emocional.

E os benefícios desse amor vão muito além do bem-estar subjetivo. A ocitocina, por exemplo, além de promover bem-estar e conexão, tem efeito anti-inflamatório, melhora o funcionamento do sistema cardiovascular e reduz a pressão arterial. O simples ato de estar próximo, de se sentir amado, melhora parâmetros físicos mensuráveis.

A solidão pode elevar o nível dos hormônios que causam estresse e inflamações, como a adrenalina e o cortisol. O resultado pode ser o aparecimento ou agravamento de doenças cardíacas, depressão, diabetes tipo 2, demência e outras. O amor, portanto, não é apenas um conforto emocional. É uma questão de saúde.

Dentro da ILPI: o direito de amar que precisa ser respeitado

Quando o relacionamento acontece dentro de uma Instituição de Longa Permanência, o desafio se multiplica. Há o preconceito da sociedade, o desconforto da família e, em alguns casos, as próprias restrições da instituição.

Dentro do ambiente da ILPI, a busca por companhia é uma maneira poderosa de espantar a solidão. Entretanto, quando se trata de ILPI, além do idadismo, muitas pessoas ainda enfrentam preconceito por viverem em uma residência coletiva para idosos. Infelizmente, em alguns locais há inclusive restrições ao envolvimento afetivo entre os moradores, o que reforça estigmas e impede o exercício de um direito básico: o de amar e ser amado.

O respeito pelos idosos como seres sexuais e vitais muitas vezes fic

a minimizado pela falta de privacidade proporcionada a eles, pela ausência de credibilidade conferida à sua sexualidade e pela falta de aceitação, respeito e dignidade para que haja a manutenção de sua expressão.

É importante lembrar que pessoas idosas são adultas com história, autonomia e direitos. Embora as pessoas idosas precisem de cuidado, elas não são crianças. São adultos, com histórias de vida, desejos, memórias, autonomia e o direito de viver plenamente sua afetividade. Falar sobre amor e vínculos na velhice é, na verdade, falar sobre dignidade e humanidade.

O papel da família nesse processo

Para os filhos e netos, ver um pai, uma mãe ou um avô se envolver romanticamente pode gerar desconforto genuíno. Esse sentimento é compreensível, especialmente quando envolve a perda recente de um cônjuge ou quando o novo relacionamento parece mudar dinâmicas familiares já estabelecidas.

Mas é fundamental separar o desconforto

pessoal do direito da pessoa idosa. A vivência da afetividade a partir dos relacionamentos de namoro, ou até mesmo de um novo casamento, poderá trazer um novo significado a esta fase. Viver a dois reúne cuidado, respeito, proteção, segurança, compaixão, companheirismo, amizade, aspectos bastante válidos numa etapa de tantas transformações.

Apoiar o direito ao amor do familiar idoso não significa concordar com todas as escolhas que ele faz. Significa reconhecer que ele ainda tem desejos, que esses desejos são legítimos e que silenciá-los, por mais bem intencionado que seja o gesto, representa uma forma de apagar a sua humanidade.

Uma cultura institucional que acolhe o afeto

Instituições que respeitam o amor entre seus residentes não estão fazendo algo além do esperado. Estão simplesmente cumprindo um compromisso com a dignidade humana.

Para combater esses estigmas, é necessário promover uma cultura institucional que valorize o direito à afetividade, respeitando os limites, preferências e particularidades de cada indivíduo, sem infantilizar ou desumanizar os residentes.

Isso significa oferecer espaços de privacidade, treinar equipes para lidar com situações afetivas com respeito e naturalidade, e acolher a família em conversas francas sobre o tema, quando necessário. O cuidado integral inclui o cuidado emocional, e o emocional inclui o afetivo.

Amar é um ato de saúde

Neste Dia dos Namorados, vale ampliar o olhar sobre quem merece ser celebrado. O casal de 75 anos que se encontrou na sala de convivência de uma ILPI e passou a dividir as tardes também tem uma história de amor que merece ser vista. A viúva de 80 anos que recomeçou, que sorriu de novo, que voltou a ter com quem tomar o café da manhã, também está vivendo algo real e bonito.

O amor eleva a autoestima e a sensaç

ão de bem-estar dos idosos. E quem cuida de pessoas idosas sabe que autoestima e bem-estar não são detalhes: são a base de tudo.

Tratar o amor na velhice como exceção é negar que a vida continua. E a vida, felizmente, continua.

Quer conhecer um lugar onde o cuidado respeita toda a história de quem envelhece? O Terça da Serra tem mais de 150 unidades espalhadas pelo Brasil, cada uma delas comprometida com o bem-estar, a dignidade e a afetividade dos seus hóspedes. Encontre a unidade mais próxima de você e venha conhecer de perto.

[1] Fonte: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11344641/